Ir para o artigo
Giovanni Scala psicanalista / investidorArtigos

Vínculos · desejo · escolhas

Gaslighting no relacionamento: posso confiar no que vivi?

Por Giovanni Scala, psicanalista / investidor · 2026-10-18

O gaslighting no relacionamento envolve distorções recorrentes que abalam a confiança de alguém na própria percepção; uma divergência de lembranças, isoladamente, não basta para identificá-lo. A questão aparece numa conversa cotidiana: alguém tenta falar de um acontecimento e acaba tendo de defender sua capacidade de compreender o que viveu. O que acontece com o pedido inicial enquanto toda a atenção se desloca para essa defesa?

O pedido que desapareceu da conversa

Esta cena é inventada para ilustrar a questão. Durante um jantar, André comenta diante dos amigos um assunto que Luísa havia pedido para manter entre os dois. Em casa, ela retoma o pedido. André nega o combinado e afirma que ela costuma confundir as conversas. Luísa tenta situar o momento: estavam na cozinha, preparando café. Ele responde que ela está exagerando. Nas semanas seguintes dessa história fictícia, outros pedidos recebem respostas semelhantes. Hoje, antes de mencionar algo que a incomodou, Luísa ensaia cada frase. Desiste de uma delas porque já não sabe explicar se foi exatamente assim.

Luísa queria conversar sobre a exposição de algo íntimo. Termina tentando demonstrar que consegue compreender uma conversa. O pedido original fica sem resposta. A pergunta pelo avesso começa nesse deslocamento: o que ela precisa deixar de dizer para que sua fala seja considerada? A discussão sobre os detalhes pode ocupar todo o espaço, enquanto aquilo que motivou a conversa permanece intocado.

Uma publicação disponível no portal do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania descreve o gaslighting como uma forma de abuso que envolve distorcer fatos e omitir situações, colocando em dúvida a memória de quem sofre. A National Domestic Violence Hotline também destaca a repetição de negações e desqualificações que enfraquecem a confiança na própria percepção.

Essas descrições ajudam a nomear uma dinâmica. Não permitem concluir, a partir de uma frase solta, o que acontece numa relação concreta. Na ilustração, importa observar a sequência: um pedido é apresentado, sua existência é negada, a capacidade de lembrar é desqualificada e o assunto fica sem discussão. Não sabemos o pensamento de André. Podemos examinar o que suas respostas fazem com a conversa.

Errar uma lembrança sem perder a palavra

Um desencontro de horário oferece outro contraste fictício. Uma pessoa lembra de ter combinado um encontro às oito; sua parceira recorda sete. Consultam a mensagem e encontram sete e meia. Ambas reconhecem o engano, ajustam o compromisso e nenhuma transforma o erro em motivo para desqualificar a outra. Pelo que essa situação apresenta, não há fundamento para chamá-la de gaslighting. A divergência pôde ser examinada e corrigida sem retirar de ninguém o direito de falar.

A distinção importa. Em reportagem sobre o uso impreciso de termos psicológicos, a TIME explica que insensibilidade, mentira ou diferença de opinião não equivalem, por si sós, a gaslighting. A palavra perde precisão quando passa a nomear qualquer desacordo. Também perde utilidade quando é usada para encerrar a investigação sobre o que efetivamente aconteceu.

Voltemos ao jantar. Mesmo que Luísa tivesse errado o dia em que fez o pedido, ainda caberia conversar sobre a exposição de sua intimidade. Corrigir um detalhe não resolve automaticamente a questão que ela trouxe. Há duas perguntas diferentes ali: como foi o combinado e como os dois vão tratar esse assunto íntimo. Uma resposta sobre a primeira não dispensa a segunda.

Duvidar pode fazer parte de uma conversa em que ambos investigam, escutam e reconsideram. O problema merece atenção quando a obrigação de rever tudo recai sempre sobre a mesma pessoa. Uma versão se apresenta como definitiva; a outra precisa justificar até o direito de existir. Essa diferença pode ser observada sem presumir intenções escondidas.

O contraponto tem seu limite: um desacordo resolvido com respeito não apaga episódios de desqualificação em outros momentos. Da mesma forma, um pedido de desculpas precisa ser considerado junto ao que acontece depois. O contexto inclui a continuidade da convivência, a possibilidade de retomar assuntos e o lugar que cada pessoa encontra para reconhecer um erro.

Ser levado a sério antes de ter todas as respostas

Na cena, Luísa deseja mais do que acertar a sequência dos fatos. Quer que seu pedido tenha importância para alguém que importa para ela. Esse desejo de reconhecimento ajuda a compreender a pergunta que fica aberta, mas não explica nem justifica a conduta de André. Querer ser ouvido não torna ninguém responsável por ser desqualificado.

Amar alguém dá peso à sua opinião. Esse peso, porém, não transforma sua versão em autoridade exclusiva sobre a experiência dos dois. Podemos considerar outra interpretação, reconhecer um engano e conservar uma pergunta própria. Ter errado uma lembrança não torna todas as falas seguintes suspeitas. O respeito não deveria depender de uma memória sem falhas.

Também cabe distinguir o desconforto da explicação que encontramos para ele. Sentir vergonha depois de um jantar merece escuta; esse sentimento, sozinho, não demonstra a intenção de quem falou. A incerteza sobre a intenção tampouco obriga alguém a aceitar que sua vergonha seja ridicularizada. É possível deixar uma explicação em aberto e reconhecer uma atitude concreta que machucou.

Talvez ainda falte uma palavra para descrever a relação. Há, mesmo assim, acontecimentos que podem ser relatados: um assunto íntimo foi exposto, um pedido ficou sem resposta, uma conversa terminou em desqualificação. Falar com alguém de confiança pode oferecer espaço para organizar esse relato, inclusive suas lacunas. Procurar apoio não exige uma conclusão pronta nem a concordância da outra pessoa envolvida.

Se houver violência ou risco, procure uma rede de apoio. Para mulheres, o Ligue 180 orienta e recebe denúncias; em emergência, ligue 190.

Segundo o Ministério das Mulheres, o Ligue 180 é a Central de Atendimento à Mulher, voltada ao enfrentamento da violência contra as mulheres, com orientação sobre a rede de atendimento e encaminhamento de denúncias. O 190 aciona a Polícia Militar em emergências policiais.

Perguntas frequentes

Preciso ter mensagens ou gravações para procurar apoio?

Você pode contar o que lembra e indicar o que permanece incerto. A escuta não precisa começar pela apresentação de provas. Um registro já disponível pode esclarecer algum detalhe, mas não é necessário transformar toda a convivência numa busca por comprovação para poder falar do incômodo.

Ainda sentir carinho torna minha preocupação menos válida?

O carinho não responde, sozinho, à pergunta sobre como a relação está sendo vivida. É possível reconhecer momentos importantes e examinar atitudes que machucam. O afeto pode fazer parte do relato sem servir como conclusão sobre todos os acontecimentos.

É necessário usar a palavra gaslighting numa conversa?

Não. Descrever o episódio e seu efeito pode ser mais preciso do que começar pelo termo. Usar essa palavra não assegura reconhecimento ou mudança. Se existe receio de uma reação violenta, confrontar a pessoa não deve ser tratado como obrigação.

Para continuar a conversa

Posso confiar no que vivi? Há espaço para rever detalhes sem abandonar a própria palavra. Na cena do jantar, permanece um pedido simples: poder falar de algo íntimo e ser levado a sério.

Acompanhe a conversa sobre vínculos, desejo e escolhas no Instagram @giovanniscala.psi.

Sobre o autor

Giovanni Scala, psicanalista / investidor. Escreve sobre vínculos, desejo e escolhas.

Fontes