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Vínculos · desejo · escolhas

Um chefe difícil no trabalho pode decidir o seu valor?

Por Giovanni Scala, psicanalista / investidor · 2026-10-18

Lidar com um chefe difícil no trabalho pede atenção aos comportamentos concretos, às condições de resposta e ao peso que sua avaliação ganha na maneira como alguém se reconhece. Essa pessoa pode distribuir tarefas, avaliar entregas e decidir oportunidades. Sua opinião tem consequências reais. Mas o que acontece quando cada reunião passa a servir também como uma tentativa de descobrir se você tem importância?

De quem era a ideia que todos acabaram de ouvir?

Esta cena é inventada, apresentada como ilustração. Numa reunião de terça-feira, Marina propõe uma mudança no atendimento. O chefe interrompe e pede que ela avance para o próximo assunto. Minutos depois, um colega apresenta praticamente a mesma proposta, sem mencionar a contribuição dela. Dessa vez, o chefe concorda. Marina olha para as anotações e fica quieta. Ao voltar à mesa, começa uma mensagem explicando a sequência. Apaga. Teme que reivindicar sua participação pareça uma preocupação excessiva com reconhecimento.

A questão do crédito tem consequências: quem aparece como autor pode receber novas responsabilidades e oportunidades de apresentar seu trabalho. Marina tem motivo para querer esclarecer sua participação. Temos, porém, apenas uma sequência de acontecimentos. Ainda falta saber se houve distração, alguma diferença entre as propostas ou uma prática recorrente de desconsiderar suas contribuições.

Uma variação igualmente fictícia muda a leitura. Ao ouvir a pergunta de Marina, o chefe reconhece que não havia entendido sua sugestão, pede que ela a desenvolva e corrige o registro da reunião. O colega confirma que retomou o que ela havia proposto. A hipótese de uma tentativa de apagá-la perde força diante dessas atitudes. Houve uma falha que merecia esclarecimento; a disposição de repará-la também faz parte do que aconteceu.

Essa possibilidade não obriga Marina a esperar sempre pela explicação mais favorável. Pede apenas que a interpretação acompanhe os fatos. Uma correção efetiva conta; a repetição do mesmo problema também. Se o crédito desaparece várias vezes e os pedidos de esclarecimento recebem desqualificação, há outros elementos a considerar. Examinar uma sequência permite falar com mais precisão sobre o problema, sem afirmar conhecer a intenção de ninguém.

A aprovação que passa a ocupar o expediente

O avesso da cena aparece depois da reunião. Marina tinha uma proposta para melhorar o atendimento. Agora, talvez passe a tarde ensaiando como demonstrar que merece ser ouvida. O esforço muda de direção: além da tarefa, surge a necessidade de desfazer uma impressão sobre si. Uma entrega pode acabar carregando uma exigência difícil de encerrar: fazer um bom trabalho e conseguir que determinada pessoa reconheça quem o fez.

Querer reconhecimento faz parte dos vínculos. Somos afetados pelo lugar que encontramos entre os outros. A pergunta é quanto uma única avaliação passa a representar. Um comentário sobre uma apresentação pode ser recebido como um julgamento sobre toda a capacidade de alguém. Isso é uma possibilidade de reflexão, não uma explicação pronta sobre quem se incomoda com a chefia. Às vezes, a preocupação corresponde diretamente a consequências concretas no trabalho.

A impressão de que um chefe não suporta ser ofuscado pode surgir quando ele desqualifica contribuições que recebem destaque. É possível levar esse comportamento a sério sem declarar que sua causa é insegurança ou inveja. Dizer que uma proposta foi ridicularizada diante da equipe permite discutir um acontecimento. Atribuir uma intenção íntima como certeza acrescenta algo que a cena, sozinha, não mostra.

Também merece cuidado a ideia de que quem fala menos manda. Uma pessoa pode permanecer em silêncio porque todos aguardam sua decisão. Outra pode ficar calada porque suas falas são interrompidas. O gesto é semelhante; as condições são diferentes. Observar quem pode discordar, pedir explicações ou mudar de posição ajuda mais do que tomar o silêncio como sinal universal de autoridade.

Há uma pergunta ética aqui: quem responde por uma tarefa encontra espaço para discutir como realizá-la? Quando toda dúvida é tratada como incapacidade, participar se torna arriscado. A pessoa pode começar a revisar cada frase antes de falar, ocupada em evitar desqualificações. Seria injusto reduzir esse impasse à necessidade de desenvolver confiança. O modo como a equipe recebe perguntas também precisa entrar na conversa.

O problema precisa caber na conversa sobre o trabalho

Na apresentação das recomendações conjuntas da OMS e da OIT, cargas excessivas e comportamentos negativos aparecem entre os fatores que precisam ser enfrentados para proteger a saúde mental no trabalho. As estratégias envolvem governos, empregadores, trabalhadores e suas organizações. Esse enquadramento inclui mudanças no ambiente e na gestão. A referência em português é a notícia da OIT identificada nas fontes.

Voltando a Marina, um pedido possível seria esclarecer como sua contribuição será registrada e quem ficará responsável pelo desenvolvimento da proposta. Isso dá um objeto concreto à conversa. Ela também pode perguntar quais critérios orientaram a decisão. Nenhuma formulação permite saber antecipadamente como o chefe responderá. A possibilidade de conversar depende do histórico da relação e do espaço efetivo para apresentar uma divergência.

Quando existe receio de retaliação, uma conversa direta pode ser difícil. Avaliar apoio de uma representação de trabalhadores ou de um canal institucional exige considerar sua confiabilidade, a privacidade e a proteção disponível. Buscar orientação não precisa virar uma campanha para que colegas tomem partido. Pode servir para compreender procedimentos e organizar acontecimentos, sem ampliar desnecessariamente a exposição de quem relata.

Mudar de equipe, permanecer ou preparar uma saída envolve condições que não se resolvem numa frase. Nenhuma escolha precisa funcionar como prova de coragem. Enquanto uma decisão amadurece, pode haver espaço para perguntar: o que desejo realizar neste trabalho, além de ser reconhecido por essa pessoa? A pergunta não elimina a desigualdade de poder. Ajuda a perceber quanto da própria atividade passou a ser organizado em torno de uma aprovação.

Perguntas frequentes

Sentir raiva depois de uma reunião torna minha leitura menos confiável?

A raiva, por si só, não confirma nem invalida uma interpretação. É possível reconhecer o sentimento e examinar o que foi dito, o contexto e as informações que ainda faltam. Não é preciso deixar de sentir para começar a compreender.

Reconhecer qualidades do chefe diminui a importância do problema?

Alguém pode ter competência em certas tarefas e agir de maneira inadequada em outras situações. Reconhecer essa complexidade permite avaliar comportamentos específicos. Um incômodo não depende de um retrato inteiramente negativo da outra pessoa para merecer atenção.

Se fiquei em silêncio, concordei com o que aconteceu?

O silêncio pode acompanhar surpresa, receio ou necessidade de tempo para compreender a situação. Ele não permite concluir, sozinho, que houve concordância. Retomar o assunto depois pode ser uma possibilidade, conforme as condições da relação.

Para continuar a conversa

Um chefe pode decidir sobre tarefas e oportunidades; essa autoridade não oferece uma medida completa do valor de alguém. A pergunta permanece: quanto espaço sua avaliação está ocupando, e que condições existem para tratar o problema no próprio trabalho?

Acompanhe a conversa sobre vínculos, desejo e escolhas no Instagram @giovanniscala.psi.

Sobre o autor

Giovanni Scala, psicanalista / investidor. Escreve sobre vínculos, desejo e escolhas.

Fontes